Brasil não pode ficar “a reboque” da tecnologia de carro elétrico

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O mundo se prepara para o carro elétrico. Europa e Japão já têm legislações que preveem a troca de carros a combustão fóssil por versões elétricas nas próximas décadas. A Alemanha, por exemplo, se comprometeu a encerrar a produção de carros a combustão até 2030.

O Brasil foi pioneiro na criação de veículos elétricos e está ficando “a reboque” dessa tecnologia, lamenta Iêda de Oliveira, vice-presidente da Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE) para veículos pesados. O primeiro programa comercial de ônibus público híbrido foi em 1999, em São Paulo.

“Temos espaço muito grande para trabalhar em novas tecnologias, uma grande cadeia produtiva – só não produzimos a bateria – e podemos ter papel de vanguarda. Não podemos ficar a reboque desse desenvolvimento.”

Um futuro elétrico
Os carros elétricos vão aumentar muito sua participação no mercado: estudo de 2018 da Itaipu Binacional estima que a frota de veículos híbridos (elétrico e etanol) leves no Brasil chegará a 360 mil até 2026.

“Os veículos a etanol já são uma opção aos carros de combustíveis fósseis (gasolina e diesel) e podem chegar a longas distâncias. E as versões elétricas têm evoluído muito. No dia em que esses veículos rodarem 1,5 mil quilômetros com uma carga de bateria, os veículos a combustão fóssil estarão obsoletos”, disse Ricardo Guggisberg, presidente da ABVE.

Atualmente, a autonomia média de um carro puramente elétrico é entre 130 a 500 quilômetros, variando de um modelo para outro. Um carro a combustão tem autonomia média de 600 quilômetros.

Em vez de ponte-aérea, corredores elétricos
Pensando nessa demanda, as distribuidoras de energia estão criando postos de recarga nas rodovias para dar mais autonomia aos carros movidos à eletricidade. Já existem “corredores elétricos” no eixo Rio-São Paulo desenvolvido pelas distribuidoras locais.

No sul, as distribuidoras Celesc (Santa Catarina) e Copel (Paraná) desenvolveram uma malha de postos que possibilita viajar de Florianópolis a Curitiba. Não vai demorar a interligar a malha de recarga do sul do país ao sudeste, afirma Thiago Jeremias, gerente de pesquisa, desenvolvimento e eficiência energética da Celesc.

“São Paulo e Rio de Janeiro já estão interligados. Se colocássemos umas quatro estações na BR-116 entre Curitiba e São Paulo, então teríamos um corredor que vai de Florianópolis ao Rio”, disse. Em Santa Catarina, a média de recarga nos postos é de 300 carros, disse Jeremias. O projeto da Celesc está em fase experimental, para estudar o melhor modelo de negócios, parcerias e adequação do sistema às necessidades dos motoristas.

Em novembro, uma missão encabeçada pela Aneel – Agência Nacional de Energia Elétrica – e o Ministério Alemão de Cooperação Econômica e Desenvolvimento, em conjunto com várias entidades, como Celesc, Copel, Itaipu e Inmetro percorreram 400 quilômetros entre as duas capitais testando o desempenho da recarga e a experiência do usuário.

As conclusões do estudo serão usadas pela Aneel para desenvolver a malha de recarga de veículos, afirma Jeremias. Mas uma das recomendações da agência é que as distribuidoras se unam para interligar os corredores. “Assim, haverá postos de recarga por todo o Brasil.”

No ano passado, a agência editou a Resolução Normativa 819, que prevê a comercialização de serviços de recarga elétrica por qualquer estabelecimento comercial. Na prática, postos de combustível, estacionamentos e supermercados são alguns exemplos de locais onde os terminais de recarga poderão ser encontrados.

Pela iniciativa, a Celesc foi uma das vencedoras do Prêmio ECO de 2018. A Itaipu também conquistou o ECO em 2014, por seu modelo de gestão sustentável.

Mais corridas, menos poluição
O Brasil tem a terceira maior frota mundial de veículos motorizados, acrescenta. Oliveira cita o Ecofrota, programa da prefeitura de São Paulo para substituir os ônibus a diesel por versões menos poluentes, como exemplo de política indutora de tecnologia sustentável.

Desenvolver tecnologias limpas de mobilidade também é uma forma de explorar oportunidades de mercado. Ela menciona que o Brasil sempre foi um grande exportador de ônibus para a América Latina, mas está perdendo mercado para a concorrência chinesa. O Chile, por exemplo, sempre foi um grande comprador do Brasil. “Eles são cercados pela cordilheira dos Andes, o que concentra mais poluição. Então eles são muito críticos com o tema e não estamos aproveitando as oportunidades”, destaca Oliveira.

Fonte: Estadão